sexta-feira, dezembro 23, 2011

Promessa é divida...







Vó, eu lembro que a senhora me dizia que a gente só podia fazer promessa se fosse cumprir. Fosse pra um amigo, vizinho, namorada ou pra Deus. Eu prometi pra Deus que ia aceitar o que ele fizesse, sem me revoltar, desde que fosse o melhor para a senhora. 
Falando em promessa, eu prometo que vou seguir tudo o que a senhora me ensinou, e olha, foi muita coisa. Foram quase 32 anos comigo, hein, véia? (faltavam só 5 para os 32, mas prometi que não ia reclamar..) Mas juro que não vou deixar ninguém esquecer suas lições e ainda vou ensinar para os pequenos.


Prometo não deixar ninguém esquecer de onde viemos. Somos gente humilde, do interior, de Nova Granada, e tudo o que conseguimos foi fruto do nosso esforço, e claro, fruto da coragem da senhora que aos 40 anos, viúva, veio pra São Paulo com 4 crianças pra tentar mudar de vida. 
Prometo que quando alguém estiver triste e com saudades da senhora, vou lembrar aquelas histórias que a senhora contava e fazia todo mundo chorar de rir. To rindo agora daquela que a senhora fazia toda manhã:
- Vó, to com fome!
- Tá com fome? Vai na rua do João Gomes, mata um home e come.


Prometo que vou lembrar o Juan, o Danilo, a Mariana, o Gabriel e os próximos que vierem a pentear a guanxuma*, escovar a privada*, lavar a mão de minhoca*, fechar a tramela*, arrumar a matula*, desfazer a munha* e lavar a copaiada*.
Prometo pegar no pé da tia Oliane, do tio Oélio e da minhã mãe com os remédios da pressão.
Prometo que se eu casar (tá difícil, hein vó?) vou respeitar, amar e cuidar da minha mulher e dos meus filhos até o fim, como o Vô fez.
Prometo que vou perder a barriga, porque tem uns 3 anos que senhora me enchia o saco falando que eu ERA tão bonito.
Prometo que toda vez que eu for pra chácara eu vou tomar um copinho de pinga, ir à capela e sentar de frente para a mangueira.
Prometo que vou ficar com a sua bengala, mas não vou deixar ela cair durante a noite, pra não irritar ninguém com o barulho.
Prometo que nesses últimos dias do ano, com o aniversário da Tia, o meu, Natal e Ano Novo, não vou deixar ninguém ficar chorando. A gente que gosta de festa sabe, que festa é festa, né vó?
Se a senhora continuar cuidando de mim, eu juro que cuido de todo mundo que ficou.
Não vou deixar ninguém ficar se perguntando, "quem vai fazer aquele café com leite?", "quem vai fazer aquele cafuné com a mão pesada", "quem é que vai me fazer dar risada com histórias do Taperão?", "quem é que vai dar aquela gargalhada alta e depois parar e dizer: não to entendendo nada?
A resposta é obvia: a senhora!


Vó, a gente vai morrer de saudade, mas todas essas histórias, ensinamentos, alegrias e tristezas que dividimos ao longo do tempo estão eternizadas em nossa memória. Somos abençoados por ter ouvido, vivido e aprendido as lições que a senhora nos deu.
Hoje, por diversas vezes, tive vontade de sentar no chão e chorar igual criança. Não é fácil ver as pessoas que eu amo com todo o meu coração sofrendo daquele jeito. Mas a senhora me ensinou a ser forte, ser corajoso, ser homem e ter fé. Então fiquei lá, firme, cuidando de todos, como a senhora sempre fez.
A partir de hoje, vou ter que começar a imaginar minha vida sem a senhora. Mas vou seguir em frente, feliz, honrando suas lições, seu nome e seu sangue.
Pela senhora, para a senhora e com a senhora, sempre.
Beijos


* guanxuma = cabelo bagunçado
* escovar a privada = escovar os dentes
* lavar a mão de minhoca = bom, isso é só para os meninos
* fechar a tramela = calar a boca
* arrumar a matula = fazer a mala
* desfazer a munha = arrumar a bagunça
* lavar a copaiada = lavar a louça



2 comentários:

Robson Assis disse...

(Velho, a gente entrou em sincronicidade de novo. Eu ia escrever sobre minha vó essa semana antes de ter lido seu post e tava escrevendo a retrospectiva).

É tanta coisa boa pra lembrar, mano, acho que a vó é a única pessoa que vc não tem realmente nada de ruim pra falar ou lembrar.

E vamo pra cima de 2012, sem medo de errar.

Abraço, mano

Helena disse...

Você disse tudo... Os nossos queridos permanecem em nós e continuam nos acompanhando em cada gesto que aprendemos com eles...

Te envio meu abraço e te desejo força e serenidade!