sexta-feira, maio 27, 2011

Brasilândia 975A




Sai do trabalho às 19:15h, e dei uma caminhada na Avenida Paulista, pra espairecer e refletir um pouco sobre essa semana corrida. De terça a quinta, sai depois das 22h, religiosamente. Parei na lojinha da Americanas que, mesmo depois de ter deixado a B2W, ainda me tira alguns reais. Tomei um café no Starbucks e entrei no 975A - Brasilândia.
Não me lembro a ultima vez que fiz esse caminho na volta para casa. Passei pela Av. Pacaembu, Cardoso de Almeida, Bairro do Limão, envolvido em meu livro.
Ao perceber que estava chegando perto de casa, parei a leitura para observar o lugar em que eu moro desde os 7 meses. 
Como diziam os Originais do Samba, " na subida do morro é diferente.." e é mesmo.
Ao levantar do banco, ouvi uma voz familiar dizer: "Canela dura, você engordou hein?", só uma pessoa me chamava assim. Era o Seu Osvaldo, que gostava de me ver jogar bola nos campinhos e falava que um dia ia me ver jogar no Santos, time dele. Me chamava assim porque quando eu jogava, apanhava muito, e me levantava rindo. Conversamos, falei da vida, dos anos, do final da minha "carreira" no futebol, da faculdade, do samba. Ele contou que um dos filhos, o Ricardo, foi jogar na Espanha, mas acabou desistindo e virou "periodista" em um jornal de Badajoz. Me lembro que o Zico, apelido do Ricardo, sempre jogou muita bola. "Ele tá gordo também viu?" (repararam no "também" ?)
Nos despedimos e eu continuei meu caminho, a pé, até em casa. Passei em frente ao salão do Balão, que estava fechando e conversei com o simpático "cabeleireiro dos sambistas", como ele diz. Vi que o salãozinho da Lidiane virou um centro estético respeitável, o Auto Elétrico do Batata ainda existe, mas o Lobo, cão de guarda, não mais.
As coisas melhoraram pra quem batalhou, e ainda batalha. O Marcelo montou uma escola de Kung Fu pra molecada sair das ruas, um cara montou a "Franklin Bernardes Escola de Dança" e pra finalizar, na minha rua tem uma Igreja da Renovação da Filadélfia, que eu não faço idéia do que seja.
Não importa o que digam nos jornais sobre a minha Brasilandia. Pra mim, sempre será o lugar mais seguro do mundo. Aqui não tem Starbucks, e os DVD's ficam por conta da Banca do Natal, mas e daí? Nunca vou me esquecer do lugar que me fez homem, e que eu aprendi tudo o que eu sei pra nunca ser passado pra trás. Como diria o finado Alceu, é a maior escola de malandros do "Basil". As maiores lições aprendi aqui, e hoje, mais uma: O sol brilha pra todos que não se acomodam na sombra.

quinta-feira, maio 19, 2011

Shining (Sil) Star




Essa semana foi a mais fria do ano em São Paulo. Mas também foi a mais fria no meu coração. Domingo, uma das pessoas mais alegres que conheci foi embora, descansar e alegrar seu novo lar.
Nos conhecemos por acaso, ela começou a trabalhar em um salão que eu cortava o cabelo e um dia se apresentou para mim. Lembro como se fosse ontem, quando na verdade, já se passaram 11 anos.
Sorridente ela me disse: “Olá! Eu sou a Silvana, mas pode me chamar de Sil, todo mundo me chama assim. Você é o Léo né?”
E ai começamos a conversar e logo percebi que tínhamos amigos em comum, do bairro, do samba, da vida. Quando eu tocava na noite, ela ia ver, sempre com as amigas e com os filhos, alguns anos mais novos do que eu. E como sambava a Sil! Todos paravam para ver aquela morena com o cabelo na cintura sambar. E ela sempre me cochichava “Se você falar pra alguém que eu já sou avó eu corto sua orelha!”. Ela era avó de duas meninas lindas.
Eu sempre deixava para cortar o cabelo no ultimo horário, pra ficar conversando com ela até a hora de fechar o salão. Nessas horas ela sentava no banco de vime lá de fora e falava dos filhos, do namorado, das netas, da vida. Contava da adolescência sofrida, do casamento desfeito e de muitas outras coisas que a Silvana, não a Sil, me contava. Mas se alguém chegava, ela se transformava na Sil, e animava a todos com suas histórias e seu jeitão debochado de ser.    
Há uns dois anos ela adoeceu e já não nos víamos mais como antes, nem falamos mais sobre a vida e riamos das próprias desgraças. Ano passado, pouco fui lá.  Nunca fiquei tão cabeludo...No começo do ano, ela voltou ao trabalho e nos vimos pela ultima vez. Ela estava diferente, já não era a Sil, a minha cabeleireira. Era a Silvana, cansada de lutar e que cortou meu cabelo devagar, enquanto eu falava da minha mulher, do meu novo emprego e das minhas novas expectativas, que hoje penso, ela já deveria ter perdido.
Ontem estava arrumando uma papelada em meu quarto pra me distrair. Em meio a contas antigas, boletos e comprovantes, um cartão caiu em minha cabeça. Era o cartão do salão...
Não quero ficar pensando em como será a próxima vez em que eu for cortar o cabelo. Prefiro pensar que nossa ultima conversa a deixou feliz por mim e que ela viu que finalmente meu juízo tinha crescido tanto quanto meus cabelos. A Sil tinha um brilho próprio e iluminava a todos que faziam parte do seu dia a dia. E como nada é por acaso nessa vida, o salão dela não poderia ter outro nome senão “Sil Star”
Fique com Deus minha amiga