sexta-feira, abril 04, 2014

Em nome do Pai





Cheguei no escritório, peguei minha água, meu café e liguei o computador. Meu telefone tocou e eu já esbravejei por dentro "caralho, já?". Era a Andréa. Aliás, não soava como ela. Uma voz trêmula, irreconhecível, murmurou. "oi, é rápido. O pai do Alê faleceu. Depois te aviso os horários. Beijo."
Só consegui dizer um "tá".
Queria ligar pro Xuxa, não consegui. Não conseguia imaginar algo pra dizer. Não conseguia pensar. Mandei uma mensagem desconexa, que certamente ele não conseguirá entender. Mas, afinal, o que ele irá entender agora? Como entender que seu pai teve uma morte repentina aos cinquenta e poucos anos. Eu não entendo.
Trabalhei o dia todo mal, pensando nele, na Tia Leo, na Camila. Não lembro de vê-los sem um sorriso no rosto. E o Xuxa, tão garoto, como ia fazer? 
Horas depois saí do trabalho, chorei, respirei fundo e liguei. Falamos pouco, não consegui falar muito, parecia que me faltava o ar. A única coisa que me lembro de ter dito a ele foi "seja forte, mas não hoje, nem amanhã. Não agora. Seja forte no seu tempo."
Desliguei e lembrei que meu pai não estaria em casa hoje. Do carro, liguei pra ele e comecei a chorar feito criança, antes que ele atendesse. Quando ele atendeu, consegui falar apenas que queria só que ele soubesse o quanto eu o amo. Ele respondeu, com a calma de sempre. "Eu sei, filho. Você me demostra isso todos os dias."
Parei de chorar, conversamos um pouco, falei do Xuxa e ouvi o mesmo conselho que ouvira em situações como estas. "Não será hoje que ele vai precisar de você. Sabe disso, né?"
Dessa vez eu sabia. O bom de envelhecer é que você aprende a ouvir as pessoas que geralmente estão certas.
Desligamos e eu segui meu caminho até em casa pensando no Xuxa, no Tio Fábio, no meu pai, na vida. 
Ninguém está preparado para a morte. Ninguém. Quando alguém vai embora assim, de repente, a gente começa a pensar se somos bons o suficiente para quem amamos. Ouvir aquilo do meu pai acalmou minha alma, mesmo achando que eu sempre posso mais. Que eu preciso poder mais. 
Entrei em casa, vi minha mãe e ouvi um barulho na cozinha. Olhei para a mesa da sala, vi a carteira do meu pai. Sorri. O abraço que eu precisava dar desde que a Andréa me ligou estava me esperando.
Porque a vida também tem surpresas boas.

 

Nenhum comentário: