quinta-feira, julho 03, 2014

E o meu medo maior é o espelho se quebrar...





Hoje, por diversas vezes, ouvi você cantar. Parecia que estava aqui, ao meu lado. É duro, cara. Sua partida abriu um buraco enorme no meu peito e eu não sei como fechá-lo. Com o tempo espero que isso aconteça, mas a cicatriz será inevitável. Ver toda aquela galera, que daria a vida por você, chorando sua partida foi foda. Logo você, que era a razão da alegria de muitos ali, nos fez morrer um pouco ontem.
Com um certo atraso passei a rever alguns princípios, coisas que você nos ensinava todos os dias, mas que o tempo - ou a falta dele - se encarregava de nos fazer esquecer. 
Estamos sempre preocupados com o "hoje" e nos esquecemos do "amanhã", que talvez se torne um "nunca mais". Deixamos pra depois o que pode ser feito agora. 
Cegados pela certeza de que as pessoas que amamos sempre estarão ao nosso lado, deixamos tudo pra mais tarde.
Em meio a esses pensamentos filosóficos, que podem soar como uma grande "viadeza" (essa palavra é sua. Na verdade ela nem existe), me pego rindo de uma das várias histórias que passamos juntos ou uma daquelas que você contava e a gente insistia em não acreditar, de tão surreal.
Ontem, na sua despedida, aquelas mesmas pessoas que inúmeras vezes te aplaudiram se reuniram mais uma vez para te homenagear. Graças ao André, a Carol e a Carla, eu consegui me levantar e sair da cama onde tinha ficado, durante horas, olhando pro nada. 
A impressão era que você iria chegar lá dando risada e abraçaria cada um de nós.
Falando nisso, me lembrei do nosso último abraço, quando saí do último pagode. Brinquei falando que você estava com a cor da esperança e você me disse: 
"Verde né? Deveria ter escolhido outra cor". 
Estou vestindo preto hoje. Não por sua causa, apenas coincidência. Eu também deveria ter escolhido outra cor, uma alegre, como você.
Preciso dar um jeito de colocar a dor pra fora e acho que escrevendo pra você é um jeito bonito de deixar marcado por aí o que você foi pra mim; um espelho, um herói, um amigo, um irmão.
O cara que me dava broncas, como no dia que eu arrumei briga com um cara no Dr. Cerva e você me deu um puta esporro. 

- Caralho, Léo! Vai arrumar briga aqui? Estamos aqui todo domingo! E se o cara volta e te dá um tiro? E outra, você cuspiu no cara, isso não se faz!!

Uma hora depois, você arrumou a maior briga que eu já vi na minha vida. (aquela em que o bar foi destruído e nunca mais abriu).
Quando recolhíamos o que sobrou das coisas, eu só te olhei. Você gargalhou e disse: "pelo menos eu não cuspi em ninguém."
São essas e outras histórias que me dão a certeza que a dor vai passar, vai virar uma saudade gigante, gostosa e vamos seguir a vida lembrando de você assim, alegre.
Também tenho certeza que meu espelho nunca vai se quebrar, sua voz jamais irá se calar, não aqui, dentro de mim.
Continue cantando, canário.

#PrasempreAlemão


Nenhum comentário: