segunda-feira, dezembro 22, 2014

Carta para vovó - Parte 3


Oi, Vó. Como estão as coisas por aí? 
Esse ano foi difícil, viu...O colo da senhora nunca me fez tanta falta. Tanta coisa aconteceu desde minha última carta que eu nem sei por onde começar. Talvez pela parte boa. Viu minha namorada, que linda? Ela e a família dela são uma benção na minha vida. E minha sogra, que faz um bolinho igual o da senhora. Só que eles chamam de "peta". Até chorei quando comi. Lembrei da senhora, de como a gente tomava bronca quando queimávamos a boca por não esperarmos esfriar. No mais, estamos todos com saúde. Eu, meus pais, a Fê, o Anderson, as crianças, o tio, a tia e o Ramon, o Dan e a Mariana. Tudo certo. 
Esse ano precisei tanto da tua mão pesada me confortando. Tudo deu errado, Vó. Tudo.
Fui mandado embora daquele emprego de um jeito muito covarde, sujo mesmo. Lembrei de quando a senhora dizia que eu tinha que desconfiar de todo mundo, porque tem muita gente ruim por aí. Tem mesmo.
Depois desse, entrei e saí de outros dois empregos, mas não tinha que ter entrado em nenhum, porque ainda estava muito desapontado. Deveria ter descansado, passeado. Na verdade, queria que a senhora estivesse aqui pra conversar comigo. Todo mundo esteve muito ocupado esse ano. E eu não consegui pedir ajuda, mesmo tendo precisado como nunca. 
Quando pedi, já era tarde, eu já tinha feito tudo errado, o ano já tinha acabado e minha pequena só podia me ouvir e me consolar.
Tanta gente querida foi pra perto da senhora esse ano. O Rico, o Tio Zé, o Alemão. Ao menos o filho do André e da Carla nasce mês que vem. Uns vem, outros vão. É a vida.
Eu queria ter mais coisas boas pra contar. Dizer que tudo o que planejei este ano deu certo. Mas foi quase. Faltou pouco pra eu comprar um apartamento e casar. Se Deus quiser o ano que vem vai ser melhor. 
Esse tá acabando. Logo é Natal, meu aniversário e o Ano Novo. Era a época do ano que eu mais gostava; acordava tarde, já o cheiro do frango e do peru que a senhora começava a fazer logo cedo e sorria. Sabia que seria mais uma festa gostosa, com comida, alegria e muita risada, graças às suas histórias.
Eu juro que tento passá-las adiante. Tanto que a Jacque já sabe quase todas. Até "munha" ela já fala.
Também prometo me esforçar ao máximo pra que o ano que vem eu só tenha coisas boas pra contar pra senhora. Deixá-la orgulhosa. Além disso, vou tentar ser aquele cara alegre como eu era há um tempo. Contar histórias, piadas, causos, mesmo sabendo que aquela risada estridente da senhora vai ficar apenas na minha memória, no meu coração e aceitar que as coisas nem sempre vão sair como a gente quer. Afinal, "não tem que fun, nem que rifunfun; a lei é que manda".
Até a próxima, velha. Te amo.
Ah, sua bengala tá aqui no meu quarto, tá? Qualquer coisa...

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