quinta-feira, junho 12, 2014

O cartão



Se eu tivesse ido antes ao shopping, conseguiria um bom cartão, quem sabe um daqueles com uma sacada bem-humorada, ou um mini-espelho colado, que dissesse "olhe pro amor da minha vida". Mas aí não seria eu. Nesses 8 meses você já aprendeu que, embora eu me esforce, a preguiça as vezes me abraça de um jeito que eu não consigo me soltar. Assim como seu abraço, quando eu chego, quando eu vou embora, com a diferença que dos seus braços eu não tento me livrar, não quero. Nunca mais.
Se eu tivesse a memória melhor, talvez lembrasse que, há alguns dias, o papel da impressora acabou e conseguiria te escrever uma carta pra colocar junto com o seu presente. Mas aí não seria eu. 
Tivesse eu comprado o cartão, o papel A4, te escreveria coisas que provavelmente você já sabe, mas que não custa te lembrar. 
Diria o quanto você me faz feliz todos os dias, seja com um bom dia, uma ligação. O simples fato de acordar e pensar em você, já me enche o peito de alegria e me faz levantar da cama (uma hora depois de acordar) feliz demais. 
Diria também que você é a melhor coisa que me aconteceu. Você apareceu em um momento terrível da minha vida, em que eu me sentia o pior dos homens, o mais feio, o menos atraente, o mais solitário e pouco tempo depois, passei a me sentir um príncipe e só não faço aquela cara porque você me morde muito doído. Talvez o que você ainda não saiba é que as coisas ruins pelas quais passei nos últimos meses (e não foram poucas), foram mais fáceis de lidar por sabia que não estava sozinho. Não mais. Só no último mês tive que passar por tanta coisa dolorida e mesmo assim consegui suportar tudo. 
Se eu disser que você era tudo o que eu queria, estaria mentindo. Depois de tudo o que passei, só queria ter uma vida tranquila, já não me imaginava realizando tudo aquilo que hoje parece tão real ao seu lado. Casamento, 3 filhos e um cachorro. (Algum sertanejo lançou uma música parecida, né?).
No fim das contas, você era o que eu precisava; me aceita como eu sou, me entende, me acalma quando eu preciso, me dá forças quando tudo parece dar errado e, acima de tudo, me respeita. 
Com você posso até ser ansioso, até porque descobri que consigo ser menos ansioso que você! Tanto que já trocamos os presentes de dia dos namorados há quase uma semana. Quem ia conseguir nos conter? Como disse minha irmã, você é "gente como a gente". 
Esse é o nosso primeiro Dia dos Namorados juntos e eu sei que será o primeiro de todos os outros do resto das nossas vidas. Sabendo disso, nos próximos anos vou tentar me programar melhor, comprar um cartão bonito, daqueles divertidos, deixar o papel na impressora em caso de alguma emergência, ou comprar um daqueles que algum estranho ocupa o cartão todo com alguma frase de efeito e deixa apenas o espaço de uma frase pra gente escrever e resumir tudo o que sente. Nesse caso, eu escreveria algo parecido com isso:

"Preta, te amo pra sempre. Obrigado por me fazer o mais feliz dos homens! Feliz dia dos Namorados."


segunda-feira, junho 09, 2014

Por um sopro




Mais um sopro de Deus levou alguém de perto de mim. Neste ano, tem acontecido com frequência. Difícil explicar esses momentos, mesmo que eles venham a se repetir mais a cada dia. Dessa vez foi meu tio Zé. Meu tio se foi na última sexta. Mas eu e algumas outras pessoas acham que ele já tinha ido em 2009, quando seu filho, Daniel, teve sua vida roubada em um assalto. 
Meu tio nunca mais foi o mesmo. Ele, que sempre foi um cara explosivo, algumas vezes difícil de lidar, deu lugar a uma pessoa com o olhar perdido, distante de tudo e de todos. Me parecia estar preparado para qualquer coisa, afinal, o que pode ser pior do que a morte de um filho aos 30 anos? Não sei.
Ele decidiu não se cuidar. Decidiu não chorar, não sorrir. Decidiu aceitar o que a vida como ela é. E assim foi até a última sexta.
O coração, cheio de amor e também de dor, deu seus sinais, mas ele preferiu ignorá-los. 
Aos 64 anos ele foi encontrar com seu primogênito, com seu pai, com Deus. 
Eu, como de costume, acompanhei tudo de longe. Entreolhando a porta, vendo meu pai chorar, meus primos sofrerem no Facebook, pensando em como a minha avó, aos 88 anos, suportaria tudo isso.
Por tudo o que tem acontecido comigo nos últimos meses, perdas, medos, saúde meia-boca e por outras coisas que eu não sei explicar, resolvi ficar em casa, em um ato egoísta, por não aguentar mais ver a morte me tirando pessoas especiais. Eu sei que um dia vou pagar essa conta. A covardia, o egoísmo, tudo isso vai me assombrar quando eu menos esperar. Mas hoje, prefiro pensar que meu tio está vendo o mar, junto com o Dani, tomando aquela Kaiser horrorosa.
Divirtam-se por aí.