sexta-feira, agosto 29, 2014

Um Divino, um Maluco e meu Pai.


"Era pra você se chamar César, por causa do César Maluco, que jogava no Palmeiras. Quando ele marcava gol, corria na torcida e pulava no alambrado. E eu corria atrás."

Meu pai sempre me contava essa história. Desde que ouvíamos José Silvério narrar gols de Edu Manga, Mirandinha, Edmar e Éder, em meados de 1986. Eu era o único Palmeirense da escola, mas não me importava. Queria mesmo era ouvir os jogos no rádio com meu pai e meu avô (que preferia a Rádio Globo). Era feliz assim.
Com o tempo passei a ter meus ídolos. Edmundo, Marcos, Evair. E meu pai nunca se empolgou tanto com nenhum deles. Ele parecia fiel ao maluco que pulava no alambrado, abraçava o bandeirinha, ficava doido a cada um dos seus 180 gols pelo Palmeiras.





















Ontem tive a chance de levar meu pai a um evento comemorativo do Centenário do Palmeiras onde alguns ex-craques contariam suas histórias sobre o tempo em que vestiram o manto esmeraldino.
Dudu chegou primeiro, acompanhado da esposa. Simpático, deu boa noite aos 80 torcedores presentes no auditório e foi para o camarim. O Divino Ademir da Guia chegou logo depois, esbanjando simpatia e humildade. Meu pai parecia feliz, revendo a dupla que tanto viu ao vivo.
Mas ao ver um homem alto, com um rabo de cavalo bem amarrado, terno com abotoaduras douradas, pulseira prata e uma voz potente, porém calma, meu pai se transformou em uma criança. Afinal, após 40 anos ele reencontrava seu maior Super-Herói: César Augusto da Silva Lemos. O César Maluco.
Durante duas horas, ele se deliciou com a simplicidade, o bom-humor e a sinceridade do artilheiro. De tão animado, meu pai quebrou o protocolo do evento e fez uma pergunta pro seu ídolo sem nem pedir a vez para os organizadores. Enquanto o mediador pediu para esperar a sua vez, César piscou para meu pai e fez um sinal de positivo, seguido de um "já respondo".
Pergunta respondida. 
Para encerrar o evento, um sorteio de brindes. Enquanto distribuíam as senhas, eu pensava na estratégia para colocar meu ídolo ao lado do ídolo dele. Mas eu não precisei fazer nada. Deus, San Gennaro, São Marcos, sei lá quem, cuidou disso. 
- 3041

Lá foi meu pai para o palco, receber de Ademir da Guia seu kit. Fui atrás, como quem não quer nada e abracei Dudu e Ademir da Guia, como se ele tivesse me dado um passe para gol. Faltava um. 
Pedi pro César tirar uma foto com meu pai.
Diferente dos jogadores da atualidade, ele sorriu e disse: "claro, filho."
Meu pai quando fica nervoso, faz piada. Desta vez ele não conseguiu fazer nada. Abraçou o ídolo, que sorriu enquanto eu contava a tal história:

"Era pra eu me chamar César, por sua causa. Quando você marcava gol, corria na torcida e pulava no alambrado, meu pai corria atrás."

César riu, emocionado. Abraçou e deu um beijo no meu pai. Eu o abracei e falei baixo em seu ouvido "talvez esse seja o dia mais feliz da vida dele. Obrigado."
Com olhos marejados ele me agradeceu e foi atender outros fãs.
Saímos da sala e meu pai, com sua sacolinha do Palmeiras na mão, corria de braços abertos em frente ao Pacaembu.
Então, enquanto uma lágrima rolava em meu rosto, percebi que o que me mantém leal ao alviverde imponente não é apenas a esperança em um futuro de glórias ou as lembranças do passado vitorioso. O que me faz vestir essa camisa e cantar o hino nas horas boas e ruins é o meu pai, o fã do César, que por muito pouco não foi meu xará.



Parabéns, Palmeiras pelos 100 anos de lutas, glórias, superação e amor.



terça-feira, agosto 19, 2014

A felicidade não se compra




Com o tempo, nossa personalidade se desenvolve, vamos evoluindo, até chegarmos onde queríamos, ou melhor, onde nunca imaginávamos um dia chegar. Eu sempre me vi diferente das outras pessoas. Nunca tive um objetivo concreto, palpável. Nunca sonhei com carros luxosos, palacetes e roupas da moda. Nunca me apeguei a lugares, pessoas ou estilos de vida. Sempre fui um espírito livre. Veja bem, não estou dizendo que sou melhor do que você que está aí sentado em seu emprego chato, que lê esse texto enquanto pensa na desculpa para não ver seu namorado (que você não ama mais) essa noite.
Eu sou de outra cepa; sou daqueles que me apego aos sentimentos, às sensações.
Mas não foi de um dia para o outro que me tornei assim. Foi preciso amadurecimento, coragem e uma certa dose de autoconfiança. 
Especialmente nesse ano de 2014, o ano mais difícil da minha vida, mas sem dúvida, o que me trouxe maior aprendizado, percebi que a vida passa muito rápido, mesmo. Como diz Ferris Buller. Tão rápido que me parece uma idiotice tremenda perdermos tempo com filmes que não queremos ver, livros com histórias chatas, namoros sem amor e empregos que nos façam felizes apenas ao voltar pra casa e não, também, ao sairmos da nossa cama quentinha. 
Fazer apenas o que gosta requer coragem, sorte e um pouco de loucura. A zona de conforto me causa um desconforto incrível, sério. Eu ainda prefiro pensar grande, voar alto, mesmo sabendo que as consequências disso podem ser irreversíveis, que o risco de cair seja gigantesco, e que as críticas sempre virão. Mas quer saber, por enquanto, ainda vale a pena. Mesmo que meu pai se preocupe e ache que sou meio irresponsável e minha mãe me dê aquele sorriso tenso, sei que tudo vai ficar bem. 
Sempre fica.
Sábado eu tive um dia muito feliz. Minha família e a família da minha Pretinha enfim, juntas. Por um momento fiquei olhando para todos eles ali, sentados na grama, conversando como se conhecessem há anos. E foi ali, naquele momento, coma câmera na mão, que eu tomei a decisão de, mais uma vez, ser corajoso e meio louco.
Hoje troquei o emprego que só me fazia feliz ao sair por uma vida meio incerta, mas que no momento, me parece melhor. Pode ser que eu sirva de exemplo; bom ou mau, o tempo vai dizer. Mas prefiro me preocupar em ser feliz, hoje, por enquanto.
Porque como diz aquele filme que eu nunca assisti A Felicidade não se compra.


sexta-feira, agosto 15, 2014

Ê, 2014!



2014 não tem sido um ano dos melhores para mim. Ao empunhar a taça de champanhe para brindar a chegada do novo ano, não me lembro exatamente do que pedi, mas, certamente, tive problemas de conexão iguais ou piores que qualquer operadora de celular neste dia. Ou não fui ouvido ou chegou tudo cortado e ninguém entendeu.
Algumas perdas pessoais, decepções profissionais, muitas reflexões e muito café, me fizeram rever muita coisa, repensar o que eu quero pra mim daqui para frente.
Fiquei um tempo sentado com meu cachorro há alguns minutos. Enquanto ele pulava em cima de mim e lambia minha cara como se eu fosse um osso gigante, lembrei da época que ele chegou e em que condições. 
Sei que já contei essa história aqui, mas não esqueço de como ele era assustado, magro e triste. Vítima de maus-tratos, Akeem, o príncipe de Zamunda, não deixava ninguém encostar em seu pescoço, traumatizado por passar horas amarrado em uma árvore por um fio, ser chutado, apedrejado e ter seu pelo todo coberto por chicletes. 
Eu só tinha uma opção: acreditar que ele se tornaria um cachorro normal e ensiná-lo a ser feliz. 16 meses depois, ele é o cachorro mais feliz, mais carinhoso e mais especial do mundo. Por que eu estou falando dele?
Essa história me ensinou a acreditar mais nas pessoas (e nos animais), crer que todos precisam de novas chances para encontrar a felicidade. E, acima de tudo, precisamos nos dar a chance encontrar nossa própria felicidade, onde quer que ela esteja.
Nos últimos dias, passei a ter uma postura diferente, visitei alguns amigos, liguei para outros, me aproximei da família e passei a fazer um exercício que, por enquanto, vem me dado a paz que 2014 insiste em querer tirar. 
É simples: quando alguma coisa me deixa chateado, no mesmo minuto eu penso em algo bom que posso fazer por alguém, para equilibrar o universo.
Coisas simples: recomendações no LinkedIn, fotografar o salão de beleza para ajudar na divulgação, fazer uma foto da galera reunida e colocá-la em um quadro para decorar o apartamento novo, criar uma página no Facebook para ajudar o trabalho de uma amiga. Coisas simples, mas que me trouxeram muita alegria ao ver o sorriso e a gratidão de cada um.
O que eu quero em troca? Nada. 
Mas se você achar que vale a pena, faça isso por alguém. Poucos minutos da sua vida podem melhorar o dia de uma pessoa. E pouco a pouco, o triste 2014 vai ganhando cores.

Se eu fosse um cara descolado, poderia ser esse do comercial da Coca



E que no dia 31/12 deste ano eu esteja operando em 4G. 


terça-feira, agosto 12, 2014

Email à confusão




Começo pedindo desculpas pelo trocadilho infeliz no título. Estava aqui pensando com meus botões (se alguém souber de onde veio essa expressão, por favor, comente) e percebi que a maneira como você administra sua caixa de entrada diz muita coisa sobre você. 
Por exemplo: diariamente, recebo várias newsletters de diversos sites de e-commerce. Sempre as mesmas, com coisas que eu não tenho o interesse em comprar. Tanto que nem chego a abri-los. 
Então me veio uma dúvida: 
Então por que cargas d'água (que também é ótima, não sei de onde veio e nem porque estou usando essa expressão) eu não rolo o e-mail até o final e me descadastro? 
Porque sou era um procrastinador. Um desses caras que deixam a vida pessoal para mais tarde. Depois eu vou visitar minha avó, mais tarde eu ligo para meus amigos. Mas como 2014 já me levou embora tanta gente, chegou a hora de tomar uma atitude: peguei o telefone e me descadastrei de todos os e-mails. Farewell, newsletters. 

Horas depois recebi um e-mail sobre a abertura de vagas para um concorrido curso de fotografia que eu estou esperando há meses. Quando abri a grade de horários, lá estava a informação:

As terças e quintas-feiras, das 13 às 17h.
                           ou
As segundas e quartas-feiras, das 08 às 12h

Pessoal, não quero ser chato e nem reaça, mas eu juro por Deus que se eu tivesse dinheiro suficiente para não precisar trabalhar nesses horários,  eu:

A) Não ficaria enfiado em uma sala falando sobre diafragmas e afins.
B) Tiraria apenas fotos tremidas, sem foco e absurdamente sem enquadramento. Porque? Porque eu estaria contando meu dinheiro com a outra mão!

Mas como eu quero muito fazer o curso, fui resiliente, gentil e educado e respondi o e-mail perguntando se não teria uma opção para pessoas que tenham outra ocupação nestes horários. Ainda não responderam. 

Na verdade, acho que fiz isso hoje porque esperava a resposta de um e-mail. De tanto o celular apitar com essas newsletters e me fazer pensar que era esse bendito e-mail que eu estou esperando, acabei cortando o mal pela raiz. Ou pelo servidor. (novamente, me desculpem.)

Att.

segunda-feira, agosto 11, 2014

Bom dia, Vietnã. Até mais, Mr. Keating


No final dos anos 80, assisti um filme com Robin Willians (que até então, pra mim, era o Popeye do filme) que me chamou muita atenção. Eu já era um apaixonado pelo rádio, ouvia notícias de esportes com meu pai antes de dormir e ficava maravilhado com a imaginação que aquela caixinha preta despertava. Eu devia ter uns 10 anos quando assisti "Bom dia, Vietnã", provavelmente no Supercine (que era muito bom naquela época) e ficava imaginando como deveria ser legal fazer as pessoas esquecerem os problemas, como estar em uma guerra, através do rádio. 

Nunca me esqueci do "Goooooooooood morning, Vietnaaaaan" no início de cada transmissão e de suas imitações. A cena com a música "What a Wonderful World", de Louis Armstrong é uma das minhas preferidas da história do cinema. A tristeza da guerra, contrasta com a beleza da música e a mensagem de esperança que ela tenta passar que, apesar de tudo, o mundo é maravilhoso.
Nunca esqueci este filme, nem Robin Williams, nem 'Jack" e "Hook". Estes são meus filmes preferidos desse gênio da comédia que se foi hoje, aos 63 anos. Ao que parece, a causa da morte foi suicídio...
Aí chega a hora em que sua cabeça explode por não entender como uma pessoa que encheu você de esperança durante sua infância e adolescência acabou perdendo a esperança na própria vida e se suicidou.
Prefiro lembrar do cara que foi o DJ Adrian Cronauer levava alegria aos soldados no Vietnã. John Keating, o professor apaixonado pelos alunos e pela vida. O cara que foi Peter Banning, o Peter Pan que descobriu que ainda podia voar, mesmo depois dos 40 ou o garoto Jack Powell, que envelhecia rápido demais...
Para quem não lembra ou nunca viu a cena citada acima, vejam abaixo.




Obrigado, Robin. Oh, Captain, my captain...


sexta-feira, agosto 08, 2014

Meu laiá laiá


Uma das coisas mais legais de crescer na periferia é ter contato com o samba desde muito cedo. Era impossível não ouvir os vizinhos tocando nas vitrolas e nos tape-decks (sim, eu sou dessa época) músicas de Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Originais do Samba, Beth Carvalho entre outros artistas que eram conhecidos apenas nas rádios e TVs de porte médio. Naquela época, nem o Chacrinha costumava levar sambistas no programa. E olha que ele levava o João Kléber.

Dos pagodinhos na calçada, fui parar nos palcos, meio sem querer e vivi assim por quase 10 anos. Conheci gente incrível, artistas de verdade, de mentira, lugares, sensações, enfim. Foi uma época de sonhos pra um cara que adorava sentar com a molecada pra batucar nos baldes e galões d’água. Essa semana, depois de anos sem ouvir um sambinha sequer, ouvi as coisas da minha época de garoto e me lembrei de tanta coisa boa. Desde os discos do Raça Negra que meu tio tinha em casa até os CDs do Sambô, grupo que eu vi nascer.















A música tem um poder incrível de nos levar a qualquer lugar do mundo, no passado, presente e, porque não, no futuro, mesmo que a gente fique sentado durante horas na mesma cadeira. Tem uma música, que nem fez tanto sucesso assim, mas que me leva a um lugar especial. Lembro do dia que estávamos pintando o apartamento novo da minha avó. Um sábado quente demais. Tirei o toca-discos do meu tio da caixa e o único disco que consegui pegar naquela bagunça era o dessa música aí de cima. Grupo Família & Cia.

Provavelmente, em breve voltarei a ouvir Beach Boys, Temptations, Vince Guaraldi, George Winston entre outras velharias que adoro. Mas nada me soa tão familiar quanto o samba e o seu laiá laiá.