quarta-feira, janeiro 14, 2015

Orra, meu!


Era mais uma quarta-feira de sol naquele bairro tradicional de São Paulo. Aquele, onde o sotaque é carregado, onde se ouve um "orra", ou "bicho" e muitos "erres" em sequência em cada esquina, bar ou cantina. A Moóca.
Segui andando em direção ao Estádio Conde Rodolfo Crespi, a famosa e charmosa Rua Javari. Fui buscar inspiração para meu novo projeto em um lugar em que eu tivesse tranquilidade e um jogo de futebol, mesmo sabendo que a qualidade do espetáculo poderia não ser das melhores. 

Mas acabei encontrando muito mais que isso. Ao passar pelo acanhado portão grená, com um grande "J" pintado, o barulho e o calor (humano) aumentava. Passei por um moleque travesso com seu estilingue no bolso, pelo seu Antônio e seus famosos canollis e cheguei às arquibancadas.
Lá, encontrei quase 3000 apaixonados, vestindo camisas com um ar retrô, que os grandes clubes tentam (e não conseguem) imitar, cantando alto o nome do orgulho da Moóca: o Clube Atlético Juventus.
Se você gosta do futebol contemporâneo, de Neymar, Messi ou Cristiano Ronaldo, aviso que este lugar não é para você.
Mas se você gosta do futebol, puro e simples, a Rua Javari te dará (ou devolverá) sensações que você não sentia desde que chutou uma bola de capotão pela primeira vez, ou desde que seu pai o levou ao estádio, independente de qual seja seu time de coração.
O coro entoado pela massa Juventina, "morte ao futebol moderno", sintetiza o clima de futebol de raiz que domina este santuário do verdadeiro esporte bretão em São Paulo.  

Em uma época onde o assento de concreto virou uma cadeira reclinável e o dogão virou um hambúrguer gourmet, ir à Rua Javari, 117, se torna uma verdadeira viagem no tempo, onde você pode desfrutar de um saboroso picolé de frutas, mandando às favas as superestimadas Paletas Mexicanas.
Não, não deixarei de ir ao Allianz Parque torcer pelo Palmeiras, tampouco de reservar meu ingresso pela internet. Como diriam os Demonios da Garôa, é o "Pogréssio". Mas não vou mentir dizendo que não sinto saudade do cheiro do pernil, que sentia enquanto ficava fila do ingresso, dizendo a cada um que me pedia "1 real pra inteirar o ingresso", que "tava com o dinheiro contado, Palestra".
A evolução vai deixando tudo mais fácil, rápido e um pouco chato. Pode ser que eu seja saudosista, não nego. Mas ao menos, desde a última quarta, encontrei um oásis do futebol de verdade. Além disso, lá você pode ler no avental do tiozinho que vende bonés e camisetas do Juventus uma mensagem inspiradora:
"Você já beijou seu filho hoje?"

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