terça-feira, março 17, 2015

Papo de louco



Sentei-me em um banco de um praça. Nele, um homem que aparentava ter quase 60, embora tentasse parecer mais jovem, lia um jornal com uma certa dificuldade em ler as letras borradas por causa da garoa fina que caia em seus poucos cabelos artificialmente ruivos, ou castanhos, ou acaju, como preferem alguns.
Recostei a cabeça no banco e enquanto deixava a garoa fina lavar meu rosto, ouvia o barulho das páginas do jornal, que se moviam vagarosamente. Percebi que o homem olhou em minha direção, mas eu estava curtindo demais aquele banho de chuva para olhar de volta. 
Continuei pensando na vida, em tudo o que aconteceu desde o ano passado e tentando buscar alguma esperança para o que virá. 
Até que sou trazido de volta ao banco, quando uma voz grave, porém amistosa, me pergunta:

- Dia ruim?
- Normal. Como os últimos 300, talvez.
- Tomou um pé na bunda da namorada.
- Não. Na verdade, não fosse por ela, eu nem conseguiria sair de casa. Estaria vendo essa chuvinha pela minha janela. Em todos os momentos ruins, ela esteve ao meu lado. Até quando eu não merecia. 
- Isso é bom. Ter alguém é bom. Alguém que a gente se importa e que se importa com a gente. Então. Qual o motivo desse desanimo? Você não parece doente. 
- Ah. Você não vai entender. Vai ser mais um a me dizer que eu tenho saúde, tenho alguém que se importa comigo e isso basta. Deveria bastar. Mas no mundo de hoje, talvez isso seja pouco.
- Olha, eu entendo de muitas coisas. Já tive problemas de todos os tipos. Rode a roleta e escolha um assunto.
- Trabalho.
- Eu sempre trabalhei duro, cara. Desde jovem, via meus amigos realizando seus sonhos, dirigindo carros e motos descoladas, saindo com as melhores garotas e eu nunca conseguia prosperar. Estava sempre um passo atrás. 
- Eu sei como é. Uma merda. 
- Sim. Uma grande merda. Até que um dia minha sorte mudou. Eu tinha conseguido o emprego perfeito. Ganhei todo o dinheiro que eu podia. Tive os carros, as motos e as garotas que eu quis, especialmente as que fingiam não me ver naquela época. 
- É maravilhoso, não é?
- Se é...A gente se acha indestrutível, inquebrável. Começa a achar que tudo de ruim que aconteceu, ficou pra trás e que nunca mais sua vida será uma merda.
- Grande erro. 
- Sim. O pior deles. Quem diz que "o pior já passou", mal sabe que "o pior está por vir". E assim como você não era preparado para o sucesso, também não é preparado para um novo fracasso.
- Eu sei. Na verdade é assim que eu me sinto hoje. Um grande fracasso.
- Eu entendo. Já estive em seu lugar. É uma merda, mesmo. Você acha que seu auge ficou para trás, que suas ideias já foram usadas e que não importa o quanto você se esforce, aquele cara que você adorou ser, jamais voltará.
- Sim. Exatamente isso. Com 35 anos eu sinto que já estou descendo a ladeira. Que meu auge já passou.
- Demorei para parar de pensar assim. Fui colecionando fracassos, péssimas escolhas, decepcionei muitas pessoas, me decepcionei. Chorei, sofri, pensei em desistir, mas nessas horas, sempre pensava em algo que fizesse meu esforço valer a pena. E continuei. Até que deu certo. Foi duro, mas cada lágrima valeu a pena. 
- Que bonito...De qual livro de auto-ajuda você tirou essa baboseira?
- Na verdade, não tirei de um livro, mas desse roteiro que eu estou lendo e pensando se aceito o papel ou não.
Finalmente olhei para o homem e vi seus olhos azuis me olhando por cima do jornal. Ele se levantou, dobrou o jornal e bateu com ele levemente em minha cabeça, enquanto dizia:
- Não desista!
Eu, atônito, fiz uma última pergunta.
- Qual é a sensação de voltar ao auge, de estar feliz novamente?
Ele sorriu, virou de costas e disse.
- Você vai descobrir.

E foi assim que eu tive a conversa mais legal de todos os tempos com Michael Keaton. 

Pena que o despertador tocou... 

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